Conheça a história de Cabo Frio - Dados fornecidos pela Prefeitura de Cabo Frio

Os Primeiros Habitantes

 

  A ocupação humana das terras onde viria se estabelecer a cidade de Cabo Frio teve início há mais ou menos 6.000 anos, quando um pequeno bando nômade de famílias chegou em canoas pelo mar e acampou no Morro dos Índios - até então pequena ilha rochosa na atual Barra da Lagoa de Araruama e ponto litorâneo extremo da margem de restinga do Canal do Itajuru.
Conforme as evidências arqueológicas encontradas nesse "sambaquí", que mais tarde seria abandonado pelo esgotamento de recursos para sobrevivência, o grupo nômade dispunha de tecnologia rudimentar e baseava-se numa economia de coleta, pesca e caça, onde os moluscos representavam quase todo o resultado do esforço para fins de alimentação e adorno. Há mais de 1.500 anos, os guerreiros indígenas tupinambás começaram a conquista do litoral da região.
Os restos arqueológicos das aldeias Tupinambás estudados na região de Cabo Frio (Três Vendas em Araruama e Base Aeronaval em São Pedro da Aldeia) e também nos acampamentos de pesca (Praia Grande no Arraial do Cabo), evidenciam uma adaptação ecológica mais eficaz que a dos bandos nômades pioneiros. O profundo conhecimento biológico da paisagem regional, em particular a Lagoa de Araruama e dos mares costeiros riquíssimos em recursos naturais, fez com que o pescado se tornasse a base alimentar dos tupinambás, reforçada pela captura de crustáceos, gastrópodes e moluscos.

 

  A vegetação de restingas e mangues da orla marítima oferecia excepcionais possibilidades de coleta de recursos silvestres, o que levou ainda a horticultura de várias espécies botânicas, destacando-se a forte presença da mandioca no cardápio e o domínio das técnicas de cerâmica. A caça, atividade exclusivamente masculina, era muito importante como complemento de proteínas na dieta alimentar dos grupos locais.
Os índios tupinambás batizaram a região de Cabo Frio como Gecay, único tempero da cozinha, feito com sal grosso cristalizado. Nos terrenos onde viria se estabelecer a Cidade de Cabo Frio, foram encontrados quatro possíveis sítios tupinambás. Os dois primeiros, o Morro dos Índios e a Duna Boa Vista, apresentavam indícios de serem acampamentos de pesca e coleta de moluscos, enquanto o terceiro, a Fonte do Itajuru, próxima do morro de mesmo nome, era a única forma segura de abastecimento de água potável e corrente disponível na restinga.
Na referida elevação junto à fonte, o atual Morro da Guia, acha-se o sítio mais importante da região e um dos mais relevantes do Brasil pré-histórico: o santuário da mitologia tupinambá, formado pelo complexo de pedras sagradas do Itajuru ("bocas de pedra" em tupi-guarani). Sobre estes blocos de granito preto e granulação finíssima, com sulcos e pequenas depressões circulares, os índios contavam as histórias dos seus heróis feiticeiros que ensinavam as artes de viver e amar a vida. Quando estes heróis civilizadores morriam, transformavam-se em estrelas, até que o sol decidisse enviá-los ao Itajuru, sob a forma de pedras sagradas, para serem veneradas pela humanidade. Caso fossem quebradas ou roubadas, todos os índios desapareciam da face da Terra.

 

Em 1503, a terceira expedição naval portuguesa para reconhecimento do litoral brasileiro sofreu um naufrágio em Fernando de Noronha e a frota remanescente se dispersou. Dois navios, sob o comando de Américo Vespúcio, seguiram viagem até a Bahia e depois até Cabo Frio. Junto ao porto da Barra de Araruama, os expedicionários construíram e guarneceram com 24 "cristãos" uma fortaleza-feitoria para explorar o pau-brasil, abundante na margem continental da Lagoa.
Em 1512, este estabelecimento comercial-militar pioneiro efetivou a posse portuguesa da "nova terra descoberta" e deu início à conquista no continente americano, que foi destruído pelos índios tupinambás em função das muitas desordens e desavenças que entre houve entre eles, em 1526. Os franceses traficavam pau-brasil e outras mercadorias com os índios na costa brasileira, desde 1504. Durante as três primeiras décadas do século XVI, praticamente restringiram sua atuação ao litoral da região nordeste.

 

A partir de 1540, por causa do rigoroso policiamento naval português nestes mares, os franceses exploraram o litoral e levantaram os recursos naturais de Cabo Frio. Em 1556, construíram uma fortaleza-feitoria para exploração de pau-brasil, na mesma ilhota utilizada anteriormente pelos portugueses, junto ao porto da Barra de Araruama. A "Casa de Pedra" cabofriense ampliou e consolidou o domínio francês no litoral sudeste, iniciando com a fortaleza de Villegaignon no Rio de Janeiro, um ano antes.

 

 

A Guerra de Cabo Frio

 

A chamada "Guerra de Cabo Frio" aconteceu em 1575. O Governador do Rio de Janeiro, Antonio Salema, reuniu poderoso exército com gente da Guanabara, São Vicente e Espírito Santo, apoiado por grande tropa tupiniquim catequizada. Os oficiais e soldados seguiram por terra e mar, tendo como objetivo liquidar o último bastião da "Confederação dos Tamoios" e acabar com o domínio francês que já durava 20 anos em Cabo Frio.

 

Após o cerco e a rendição da fortaleza franco-tamoia, dois franceses, um inglês e o pajé tupinambá foram enforcados; 500 guerreiros foram assassinados a sangue frio e aproximadamente 1500 índios foram escravizados. As tropas vencedoras ainda entraram pelo sertão, queimaram aldeias, mataram mais de 10.000 índios e aprisionaram outros tantos. Os sobreviventes refugiaram-se na Serra do Mar e Cabo Frio.
A baixada litorânea, de Macaé até Saquarema, devido à carnificina levada a efeito contra os índios, verdadeiros donos das terras, ficou transformada em um verdadeiro deserto humano, e somente movimentada com a passagem esporádica dos Goytacazes que incursionavam por estas terras à procura da caça e pesca.
Embora os portugueses não tivessem colonizado Cabo Frio após o massacre de 1575, estabeleceram um bloqueio naval mais ou menos eficiente com base na cidade do Rio de Janeiro.

 

 Mas, entre 1576 e 1615, com a perda da independência de Portugal para a Espanha, o porto de Araruama voltou a ser freqüentado por navios franceses, ingleses e holandeses em busca de pau-brasil, tornando-se também a base da pirataria contra embarcações portuguesas que procuravam dobrar o cabo.
Depois de 1580, com a submissão de Portugal, a Espanha redobrou a presença destes navios que carregavam as bandeiras inimigas dos castelhanos.

 

 

A Colonização

 

Já em 1615, o Governador do Rio de Janeiro, Constantino Menelau, associou-se secretamente aos ingleses para traficar pau-brasil em Cabo Frio. Neste mesmo ano, o governador foi obrigado a combater navios holandeses que aportavam na região.
Assim, voltou a Cabo Frio para expulsar os ingleses que o haviam enganado e construiu uma fortaleza-feitoria na ilha, utilizada anteriormente pelos portugueses e franceses, junto ao porto da Barra de Araruama.
Finalmente, Constantino Menelau recebeu ordens do Rei Felipe III, da Espanha, para mais uma vez retornar à região e estabelecer uma povoação. Em 13 de novembro de 1615, junto à Barra de Araruama, com a ajuda de 400 homens brancos e índios catequizados, levantou a Fortaleza de Santo Inácio e fundou a Cidade de Santa Helena do Cabo Frio, a sétima mais antiga do Brasil.
Em 1616, Estevão Gomes, rico fazendeiro e comerciante de escravos africanos do Rio de Janeiro, foi nomeado capitão-mor de Cabo Frio e transferiu o sítio da povoação colonial para o atual bairro da Passagem, rebatizando-a como Cidade de Nossa Senhora da Assunção do Cabo Frio. Iniciou-se também o desmonte da Fortaleza de Santo Inácio, e, simultaneamente, a construção do Forte de São Matheus, terminado em 1620. Deu início, ainda, à veloz distribuição das terras continentais para meia dúzia de amigos e apadrinhados influentes, favorecendo a formação de latifúndios.

 

    Em 1617, Estevão Gomes apoiou o estabelecimento da Aldeia de Índios de São Pedro do Cabo Frio pelos Jesuítas, que abrigou 500 tupiniquins catequizados, com o objetivo de evitar desembarque inimigo europeu na costa. As manobras integradas pela infantaria indígena de São Pedro e pela guarnição da Fortaleza da Barra derrotam tentativas de desembarque inglês e holandês em 1617, 1618 e 1630, abrindo as portas para a elevação da cidade à sede da Capitania Real do Cabo Frio em 1619 e a conquista do norte fluminense, com a submissão dos índios goytacazes a partir de 1631.

 

     Os poucos habitantes da cidade passaram a se dedicar à pesca e à exploração das salinas naturais da lagoa, enquanto os latifundiários continentais, especialmente jesuítas e beneditinos, estabeleceram fazendas de gado em Bacaxá, Parati, São Matheus, Búzios e Macaé, onde africanos e índios catequizados trabalhavam e dedicavam-se à agricultura, pesca, caça e coleta de substâncias.
Ainda pelo ano de 1617, o Jesuíta João Lobato manda assentar 500 índios Tupinambás, do Espirito Santo, na Ponta da Jacuruna, onde então fundou a Aldeia de São Pedro. Em 1619, o governo da metrópole criou a Capitania Real de Cabo Frio, que ficou diretamente subordinada à autoridade colonial da Bahia e totalmente independente da capitania do Rio de Janeiro.
A parte norte do seu território, justamente onde viviam os Goytacazes, foi então comprada do herdeiro da capitania de São Tomé - cujos limites iam do rio Paraíba do Sul até o rio Macaé - como também a parte sudoeste, que já havia sido conquistada de São Vicente durante a fundação da cidade de Cabo Frio, cujos limites direcionavam de Ponta Negra e Saquarema até o rio Macaé.

 

    A instabilidade na região perdura até 1625, quando o governador da capitania do Rio de Janeiro, Martim Correa de Sá, doa uma gigantesca sesmaria localizada entre os rios Macaé e Paraíba do Sul então pertencentes à jurisdição de Cabo Frio aos chamados "Sete Capitães".
Em 1630, logo após os índios Tupinambás radicados em São Pedro terem destruído algumas aldeias Goytacazes, simultaneamente, e os portugueses do Espírito Santo terem aniquilado de forma cruel grupos dessa mesma nação étnica, passou então o esbulho às terras da capitania de Cabo Frio.
Com a região norte desimpedida, e como os jesuítas tinham não só uma visão bem mais aguçada, mas como eram também muito bem informados, passaram então a exigir o seu quinhão: pedem à capitania do Rio de Janeiro duas sesmarias e logo são atendidos, sendo uma localizada entre o rio das Ostras e o rio Macaé. Logo em seguida levantam a fazenda visando a criação de gado e agricultura e a Igreja de Santana - a segunda sesmaria que havia sido pedida em nome dos índios Tupinambás de São Pedro e de muitos índios Goytacazes que àquela altura já viviam na Aldeia: terras entre os rios Macaé e Paraíba do Sul, sobrepondo-se aos limites da sesmaria que já havia sido concedida aos "Sete Capitães". O relativo sucesso da colonização rural da Capitania contrastava com o fracasso urbano que impedia novos investimentos em Cabo Frio.

 

    Entre 1620 e 1630, os primeiros pescadores portugueses que se radicaram na povoação retiraram-se procurando uma vida melhor nas barras dos rios Macaé e Paraíba do Sul. Nessa época, em torno de 1640, ocorreu a libertação de Portugal do domínio espanhol. Ainda em 1645 a situação continuava difícil e mesmo os degredados, que vieram do Rio de Janeiro para povoar a cidade, fogem para os Campos de Goytacazes à procura de terras devolutas e trabalho livre.
A Cidade de Cabo Frio inviabilizara-se porque a barra de navegação estava semi-entupida, a Fortaleza sem guarnição e armamento, o monopólio real proibia a comercialização do pau-brasil e sal, a arrecadação dos dízimos era feita pelo Rio de Janeiro, não havia serviço religioso cristão, o capitão-mor concentrava os poderes militar, executivo, legislativo e judiciário e o núcleo da Passagem era invadido esporadicamente pelas águas das marés de lua.

 

 

Uma Valiosa Descoberta

 

    Entre 1650 e 1660, a grave crise do sal português que desabasteceu o Brasil chamou a atenção da metrópole para a cristalização natural do produto na Lagoa de Araruama. Com esse impulso dado à economia, um novo centro urbano era levantado junto à atual Praça Porto Rocha: rasgou-se a Rua Direita (hoje Érico Coelho), foram construídos a Igreja de Nossa Senhora da Assunção e o sobrado da Câmara e da Cadeia, que formavam o Largo da Matriz, onde fincou-se o Pelourinho.
Em meados de 1660, cristalizaram-se as condições geopolíticas para o retorno de investimentos à Cidade de Cabo Frio. Já em 1663, a administração volta a se reunificar na Bahia. José Varella é reconduzido ao cargo de capitão-mor de Cabo Frio e, pela primeira vez, nomeia-se um alcaide-mor para a cidade. O novo governador do Rio de Janeiro tenta impedir a posse de José Varella; o governador acaba sendo censurado a não se inserir na jurisdição dos Campos dos Goytacazes, pertencente a Cabo Frio. A seguir, os beneditinos receberam uma sesmaria urbana dando origem ao bairro de São Bento.

 

    O primeiro sinal da mudança para o novo centro urbano iniciou-se em 1663. Os beneditinos, sempre bem informados, passaram a procurar avivar os marcos de sesmaria recebida na cidade de Cabo Frio para a construção de um convento, em 1620, e dentro desta área encontraram um forno para fabricação de cal, entre outras benfeitorias. Passado um ano depois, isto em 1664, pedem mais terras para levantar as casas para os frades que vêm povoar a cidade. É provável que a Igreja de Nossa Senhora da Assunção ainda não estivesse com a sua construção concluída, pois somente pela carta real de fevereiro de 1666 o vigário Bento de Figueiredo veio assumir suas funções.
Como os beneditinos não edificaram as casas para o povoamento conforme comprometeram-se, a Câmara retoma as terras. Em 1667 argumentavam que a cidade somente naquela época começava a ser povoada e assim pediram uma porção de terras com 18 braças na rua Direita, para que fosse levantada a edificação para uso da Câmara.

 

    Trinta anos depois, em 1696, os franciscanos inauguraram o Convento de Nossa Senhora dos Anjos, próximo à Fonte do Itajuru, consolidando o perímetro histórico do novo centro administrativo, religioso e colonial. Já no final do século XVII, o desenvolvimento urbano de Cabo Frio novamente estancou, basicamente por dois motivos: a aldeia de índios de São Pedro, sob jurisdição dos jesuítas e com população de dois mil habitantes, não conseguia mais impedir desembarques de inimigos em Búzios e, por isso, a exploração das salinas naturais, primeira e maior riqueza dos colonizadores, foi terminantemente proibida.

No entanto, essa ordem não foi cumprida, levando ao tráfico do produto marinho. A Câmara passou então a arrendar as praias do Cabo e de Búzios. Foram construídos dois engenhos para a produção de aguardente em Araruama e erguida, pelos jesuítas, a Fazenda Campos Novos, futuro estabelecimento agropecuário modelo e foco importante de colonização do atual Distrito de Tamoios. Inicialmente, a fazenda foi destinada a criação de gado para o abastecimento de açougues cariocas e de lavras de ouro das Minas Gerais.

 

Dois Séculos de Expansão

 

Já no início do século XVIII, o Forte de São Matheus foi guarnecido e rearmado. A defesa da capitania passou a contar também com um terço de infantaria, além de um regimento de cavalaria. A cidade de Cabo Frio expandiu-se, sendo aumentada a Igreja de Nossa Senhora da Assunção, construída a capela de Nossa Senhora da Guia no Morro do Itajuru e a Igreja de São Benedito no Largo da Passagem. Na cidade, viviam cerca de 1.500 habitantes em 350 casas, enquanto outros 10 mil habitantes espalhavam-se pela capitania, sendo metade constituída por escravos negros.

 

    Essa expansão urbana refletia o sucesso de várias atividades econômicas que eram exportadas para o Rio de Janeiro, em geral pela Barra de Araruama. Na agricultura, destacavam-se as plantações de anil, cochonilha, legumes, cana-de-açúcar, mandioca, feijão e milho, cujas maiores produções eram da fazenda Campos Novos que continuava também a criar gado. Apesar da repressão portuguesa, a produção de sal ainda era abundante.
Em Arraial do Cabo, florescia a pesca de arrasto e era construída a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Na Armação dos Búzios, entre 1720 e 1770, caçava-se baleia e manufaturava-se o óleo. Nas pescarias em alto mar e no interior da lagoa, capturavam-se peixes e camarões. Nos barreiros e em olarias eram produzidos tijolos e telhas, nas florestas e serrarias derrubavam-se madeiras nobres e em serrarias fabricavam-se grande número de taboados.
A Câmara de Cabo Frio apoiou com entusiasmo a independência do Brasil em 1822, fazendo-se representar nos festejos em homenagem a Dom Pedro I, sendo depois recompensada: o Major Engenheiro Bellegard, enviado pelo governo imperial, construiu um farol na ilha do Cabo Frio, para evitar naufrágios como o da fragata "Thetis", e levantou também os pregões da futura ponte sobre o Canal do Itajuru. Instalou o telégrafo e, ainda, desobstruiu a Barra nova e fechou a velha, preservando o antigo Porto da Barra.

 

    Por conta própria, Bellegard e outros cidadãos levantaram o prédio da Charitas, destinado a abrigar e educar recém-nascidos de mães solteiras pobres, que eram deixados numa roda à porta, durante a noite, onde eram recolhidos anonimamente. Por fim, Bellegard projetou e rasgou as primeiras ruas da cidade de Cabo Frio promovendo assim o primeiro plano de urbanização da cidade.

 

A Visita Imperial

 

    A visita que Dom Pedro II fez à cidade, em 1847, estreitou as relações especiais que Cabo Frio mantinha com o governo imperial, tendo sido doada uma quantia para a construção da cobertura da Fonte do Itajuru e outra para a Charitas, com o objetivo de facilitar sua manutenção e instalar uma enfermaria, que mostrou-se de grande utilidade por ocasião das devastadoras epidemias de febre amarela e varíola que assolaram a região durante o século XIX.
O Imperador visitou o estabelecimento modelo das Salinas Perynas, incentivado por ele próprio, de propriedade do alemão Lindemberg, que colocou em prática novos métodos de produção mineral, dando início ao moderno parque salineiro de Araruama.

A Questão Negreira

 

    Duas questões relativas aos escravos estremeceram Cabo Frio ao longo do século. A primeira refere-se ao crescimento das fugas, assassinatos de feitores e rebeliões de negros, resultando na formação de quilombos que sobressaltaram os senhores brancos, a despeito da ação dos capitães-do-mato. A segunda diz respeito à proibição do tráfico transatlântico de escravos e ao contrabando florescente que dele derivou.

 

     A praia do Peró, em Cabo Frio, era ponto de desembarque clandestino deste comércio humano. A marinha inglesa, em flagrante desrespeito às leis brasileiras, promoveu repressão ao tráfico e chegou a apreender navios negreiros na costa e a desembarcar fuzileiros navais em Cabo Frio e Búzios.
Nas décadas finais do século XIX, a Barra e antigo porto de Araruama receberam novos melhoramentos do governo imperial, dando passagem a navios maiores e tendo o ancoradouro ampliado, fatores essenciais ao incremento da exportação regional. Alguns assoreamentos críticos do Canal do Itajuru foram dragados e canalizados, por iniciativa particular do engenheiro francês Leger Palmer, permitindo a ampliação da carga e a navegação mais eficiente dos vapores e veleiros que transportavam a grande produção de sal para os armazéns da cidade.

Atividade Produtiva

 

     A captura e a salga do pescado e do camarão mantiveram-se estáveis, da mesma forma que a manufatura de telhas, tijolos e taboados. O surgimento da construção naval e da indústria de cal (feita com conchas da lagoa) abriu novas perspectivas econômicas regionais. A abolição da escravatura em 1888 e a conseqüente proclamação da República no ano seguinte, desorganizaram algumas atividades produtivas de Cabo Frio, como a agricultura do café, que viu-se substituída pela pecuária em pequena escala.
Os ex-escravos da zona rural reagruparam-se e fundaram uma povoação na Praia Rasa, em Búzios, passando a trabalhar na pesca e na horticultura próprias, enquanto os escravos da Cidade de Cabo Frio tomaram posse e fundaram a povoação da Abissínia, que mais tarde deu origem ao atual bairro da Vila Nova, trabalhando no fornecimento de carvão vegetal aos antigos senhores.
A produção do sal era o mais notável recurso da região, entretanto, não foi afetada. Há alguns anos se fizera a substituição do braço escravo pelos imigrantes portugueses do Aveiro, que trouxeram e adaptaram técnicas artesanais consagradas, resultando no aumento da qualidade e quantidade de cristalização marinha artificial de Araruama.

 

   Embora a atividade pesqueira continuasse competitiva, em especial depois da introdução das traineiras na captura em alto mar, até pouco mais de metade do século XX, o parque salineiro de Araruama dominou a produção econômica regional, cujos reflexos urbanos foram a instalação do aparelhado Hospital Santa Izabel e a atração da iniciativa privada para exploração do sistema de energia elétrica na cidade.
A ferrovia Niterói-Cabo Frio, as melhorias no porto do Arraial do Cabo e a posterior inauguração da Rodovia Amaral Peixoto contribuíram para o aumento da produção do sal e para o transporte eficiente até a capital da República e outros importantes centros consumidores do país. O auge do desenvolvimento setorial ocorreu na década de 60, com a instalação de duas grandes usinas de beneficiamento de sal em Cabo Frio, e com a construção do complexo industrial da Cia. Nacional de Álcalis, no Arraial do Cabo, que abriu salinas e passou a extrair conchas na lagoa para produção de barrilhas.

 

    A crescente industrialização do município atraiu numerosos trabalhadores brasileiros, dando origem ao novo bairro de São Cristóvão. Alberto Lamego, em seu livro "O Homem e a Restinga", analisa as tendências e as predileções dos habitantes da região, retratando, assim, as suas paixões profissionais, em que a pesca tem acentuada predominância, por ser justamente uma das principais riquezas da região - haja vista a incrementação do turismo em função da pesca como esporte.
As matas e capões dos areais fornecem excelente carvão de madeira. A restinga adapta-se favoravelmente à agricultura, cuja produção principal é incipiente ainda, atendendo apenas ao consumo local; assim, a pecuária, devido a sua essência, presta-se magnificamente a produtos bons e resistentes.
Quanto ao campo mineral, existem produtos naturais de grande valor econômico, como os calcários, o sal, entre outros. Constata-se abundância de areia própria para ser empregada na fabricação de porcelana e vidros finos, destacando-se a monazita, de ocorrência comum na região. A grande riqueza mineral de Cabo Frio foi, inquestionavelmente, o sal.

 

Brasão de Armas de Cabo Frio

 

Resolução nº 127-A da Câmara Municipal
Adotado em 10 de Novembro de 1967
Autor: Prof. Alberto Lima

 

  

 

Descrição dos Símbolos:

 

 

1- Escudo em formato Português (ou Espanhol);
2- Árvore simbolizando o pau-brasil, que motivou a cobiça dos europeus e as conseqüentes reações portuguesas

que resultaram na fundação da Cidade;
3- Golfinhos que simbolizam Cidade Marítima;
4- Data do "Descobrimento" por Américo Vespúcio e da fundação da cidade;
5- Arco e Flecha, simbolizando a nobreza de caráter e a elevada noção de honra dos índios tamoios, primitivos

 habitantes do lugar;
6- Escudo oval usado por mulheres, sobretudo rainhas, com uma flor-de-lis, símbolo da Mãe de Deus, representando

 a cidade a ela dedicada... No caso Nossa Senhora d'Assunção;
7- Coroa Mural Com Cinco Torres, simbolizando "status" de Cidade;
8- Forte de São Matheus construído em 1616 pelo primeiro Governador (Estevão Gomes), para defesa da Cidade;
9- Escudete, simbolizando Antônio Salema que comandou o massacre dos Índios Tamoios, aliados dos franceses...

as estrelas representam as vítimas;
10- Montes de Sal, simbolizando a primeira indústria local. BRASÃO DE ARMAS DE CABO FRIO.

 

Descrição das Cores:

1- Blau (Azul) - Representa O Céu, A Felicidade Eterna E, Entre Outras Coisas, A Formosura, A Doçura, A Nobreza;
2- Sinople (Verde) - Representa A Força, A Esperança, A Honra, A Cortesia E A Amizade;
3- Goles (Vermelho) - Representa A Coragem, O Sangue Derramado A Serviço Do Estado, A Crueldade;
4- Jalne (Ouro) - Representa Justiça, Clemência, Nobreza, Saúde, Alegria, Cavalheirismo, Poder;
5- Prata - Representa Inocência, Felicidade, Pureza, Verdade, Formosura, Integridade;
6- Sable (Preto) - Representa Firmeza, Obediência, Constância, Trabalho.

 

HINO DE CABO FRIO
Autor: Victorino Carriço

Cabo Frio, minha terra amada,
Tu és dotada de belezas mil,
Escondida vives num recanto,
Sob o manto deste meu Brasil...

Noites Claras teu luar famoso,
Este luar que viu meus ancestrais...
O teu povo se orgulha tanto,
E de ti, não esquecerá jamais...

Tuas praias, Teu Forte,
Olho ao longe e vejo o mar bravio
A esquerda um pescador afoito,
Na lagoa que parece um rio...

O teu sol, que beleza!
No teu céu estrelas brilham mais...
Forasteiro, não há forasteiro,

Pois nesta terra todos são iguais...

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